“O crítico de arte Yve-Alain Bois convidou a Pinakotheke para publicar o ensaio em Anjos com armas , que conta a história da amizade do crítico e curador britânico Guy Brett com o artista filipino David Medalla, um dos fundadores da lendária galeria Signals em Londres. Lá, por orientação de Guy Brett, expuseram: Sergio Camargo, Lygia Clark, Mira Schendel e, mais tarde com o fechamento da Signals, na White Chapel, Hélio Oiticica.
Guy Brett sempre foi a grande referência para uma melhor compreensão da produção artística no Brasil a partir dos anos 1960, na Europa. Sua amizade com estes artistas, na década de 1960, e, mais tarde com Lygia Pape, Cildo Meireles, Antonio Manuel, Tunga, Waltercio Caldas, Regina Vater, Roberto Evangelista, Maria Thereza Alves, Jac Leirner, Ricardo Basbaum e Sonia Lins propiciou a divulgação da produção artística, internacionalmente, através de diversos artigos e livros.”

Max Perlingeiro

SERGIO CAMARGO

Eu acabara de começar a escrever sobre arte e estava intimamente envolvido com o Signals, grupo e espaço de exibição em Londres que apoiava experimentos e, especialmente, a arte cinética, feita por Paul Keeler e o artista David Medalla. Em uma visita que fiz a Paris com Keeler e Medalla em 1964, SERGIO nos mostrou os relevos brancos que estava fazendo e, quase imediatamente, começou a falar sobre notáveis artistas brasileiros: Lygia Clark, Hélio Oiticica, Mira Schendel entre outros. Foi um encontro feliz em vários sentidos: não apenas pela descoberta da obra de SERGIO Camargo, mas também pelo interesse erudito sensível que ele sempre teve pelas obras de outros, sem qualquer traço de inveja, e que logo se estendeu a um interesse quase paternal pelo sucesso do Signals, dirigido por um entusiasmado, porém inexperiente, grupo de pessoas, todas com cerca de vinte e poucos anos de idade.

Guy Brett

LYGIA CLARK

Em uma breve descrição, isso pode soar enigmático e difícil. Na prática, contudo, o desenvolvimento da obra de Lygia Clark teve extraordinária clareza. Sua coerência nos torna capazes de registrar uma trajetória que começa com a pintura e termina com a prática de uma espécie de psicoterapia. Para Lygia, isso não foi uma mudança de profissão, e sim uma continuidade em que as implicações de seus experimentos mudaram nosso entendimento do que a palavra “artista” pode significar. Ela passou de uma linguagem visual em seu sentido mais puro para uma “linguagem do corpo”, que não é realizada ou assistida, porém vivida pelo participante de forma a permitir que uma relação eficaz e favorável à “cura” ocorra em face das crises da vida.

Guy Brett

HÉLIO OITICICA

Para atender a uma exposição planejada pela Signals, obras de Hélio Oitcica haviam sido enviadas para Londres através do Itamarati. Em vez de permitir que esses trabalhos retornassem ao Brasil sem terem sido vistos, procurei, durante o ano de 1966, um lugar para expô-los em Londres. Enquanto isso, Hélio foi convidado para participar da Bienal dos Jovens em Paris, na qual foram exibidos alguns Parangolés. Escrevi sobre a exposição para o The Times e, mais tarde, no mesmo ano, afirmei que o Parangolé era “diferente de tudo que já havia visto antes” e que a sensibilidade de Oiticica “poderia afetar profundamente as artes europeia e americana”. Finalmente a galeria Whitechapel concordou em promover uma exposição de Hélio; após muitas idas e vindas, ela foi inaugurada na primavera de 1969.
Em 1965, a obra de Hélio já havia aparecido no Boletim da Signals 4, e uma mostra de sua obra tinha sido agendada para 1966. Uma primeira remessa da obra já chegara do Brasil quando o empreendimento da Signals afundou financeiramente e teve de fechar as portas.

Guy Brett

MIRA SCHENDEL

Quando os desenhos de Mira Schendel foram exposto pela primeira vez em Londres, em meados dos anos 1960, na galeria Signals (com a recomendação inicial de Sérgio Camargo), achei sua economia espantosa. O vazio radical da folha de papel era correspondido pela extrema delicadeza dos registros. Como objetos materiais, tinham uma qualidade única, que eu nunca vira nas artes gráficas, uma combinação de formato, quantidade, dimensão, papel utilizado e técnica de inscrição. Nesse período, Mira estava em pleno desenvolvimento de uma forma de produção que renovaria de modo especial a capacidade da arte como processo de sensibilização.

Guy Brett

UM RELATO PESSOAL SOBRE GUY BRETT (E DAVID MEDALLA)

“Embora vivessem distantes um do outro havia já alguns anos, pois David retornara para seu país natal, Filipinas, eles eram, de certo modo, inseparáveis. Eu sempre os encontrava juntos e, quando os via separados, um sempre me dava minuciosas notícias do outro. Ainda que seus modos de elocução fossem impressionantemente diferentes — Guy falava de maneira lenta e econômica, enquanto David era inconstante e dado a digressões deliciosamente retorcidas —, ambos eram fascinantes contadores de histórias, com uma sensível atenção aos detalhes e uma memória estupenda. Havia algo tão semelhante no caráter vivaz da curiosidade, na disponibilidade de cada um deles, que era impossível não pensar em um quando se ouvia o outro falando.
(…) Sob muitos aspectos, Guy e David eram parecidos — unidos pelo mesmo internacionalismo, o mesmo desdém pelo provincianismo do mundo da arte, particularmente o britânico. E, ainda assim, tão diferentes quanto à personalidade, com históricos bem contrastantes. (…) Guy teve uma juventude extraordinariamente privilegiada, mas nada disso transparecia em sua maneira de viver e de pensar— o único sinal remanescente disso quando o conheci (em 1974, acredito) era talvez seu trabalho como crítico de arte para o Times de Londres, um posto que ele conseguiu aos vinte e poucos anos. (…)
Antes de se tornar crítico de arte do Times de Londres (de 1964 a 1974), Guy escreveu regularmente para o Guardian em 1963-64 e, segundo seu irmão mais novo, Sebastian, para o YorkshirePost. (…) Quanto a David, ele me regalava com histórias da grande residência familiar de sua juventude emManila, sempre repleta de convidados frequentemente persuadidos a participar de performances improvisadas de música ou de teatro e dança.
(…) Quando, logo após a morte deles, fui incumbido de escrever um duplo obituário, eu me vi incapaz de manter a imperativa distância e, em vez disso, decidi escrever um relato pessoal do meu relacionamento com os dois. Mas isso levou a outro dilema: embora Guy e David tenham sido muito importante sem minha vida (de maneiras diferentes), o relato de nossas amizades não poderia ser senão desequilibrado. Eu os vi bastante ao longo de aproximadamente uma década, mas minha conexão com David perdeu força depois que parti para os Estados Unidos (ele me escrevia esporadicamente até o fim dos anos 1990, mas suas cartas eram de natureza profissional — para me informar sobre uma performance que ele faria num festival em algum lugar, uma mostra que ele estava preparando, suas diversas peregrinações ao redor do mundo e, com frequência, para contar com meu apoio em palestras, obter um visto, recomendá-lo para isso ou aquilo etc. na cabeça dele, eu me tornara parte do sistema acadêmico, não mais da juventude que ele procurava encantar e seduzir). Com Guy, a situação era bem diferente. Nosso vínculo se fortaleceu, nunca deixamos de aprender um com o outro, e nossa correspondência de cinquenta anos (com várias interrupções) revelou-se, ao ser relida, um verdadeiro tesouro pronto para ser garimpado. É exatamente isso [que escrevi] no texto Anjos com armas: meio diário, meio álbum de recortes.”

Yve-Alain Bois