“Valentim é produto vital desse ser mestiço que nos tornamos, e, talvez, seja o artista que fez melhor e mais intensamente a síntese sincrética em todas as Américas afetadas por uma colonização brutal que ainda atormenta a consciência no século XXI. Sua contribuição estética ousada e intrépida, não só pela obsessão pelo fazer ou pelo querer legar o testemunho de uma simbologia original transcrita da força espiritual afro-brasileira, mas também pela herança nativa indígena, pelo entrecruzamento de símbolos e sons primordiais e ancestrais que compuseram civilizações milenares na feitura da geometria do sagrado. Valentim quis recriar de forma libertária e corajosa ao traduzir esta poética do sagrado em quase 2.000 obras entre pinturas, relevos, esculturas e objetos, desenhos e sua obra gráfica que o fizeram um dos artistas fundadores do imaginário visual do Brasil.

[…] Sua obra encanta e canta epifanias aos orixás de um novo mundo a contribuir para um projeto utópico e poético. Sonho ainda a ser realizado. Sua gramática poética e mítica se desdobra ou se encaixa peça por peça, cor contra cor ou a favor de outra, no contraponto de totens e do tabu que desafiou ao tocar nas coisas dos terreiros do povo negro miscigenado e que muitos brasileiros não acolhem. E, como se sons de tambores ressoassem em seus objetos emblemáticos, dança-se em um infinito ritual de formas uma corajosa música polifônica que acolhe uma estrutura coral cantado as epifanias de poder e fé. Valentim é a mais plena e original realização, não só do “projeto construtivo brasileiro”, mas de um estético e espiritual desenvolvido com afinco entre as décadas de 1950 e 1980 que definiu uma contribuição preciosa das Américas à arte do mundo.”

Bené Fonteles, “Sagrada Geometria”, Edições Pinakotheke, 2022

TEMPLO DE OXALÁ

ENSAIO FOTOGRÁFICO DE CHRISTIAN CRAVO – Fevereiro, 2022

Minhas memórias mais afetuosas e distantes levam-me ao ateliê da casa de meu avô, o escultor Mario Cravo Júnior. Lá, passei minha infância, minha adolescência e parte da fase adulta. Era o lugar do impossível. Dos perigos de andar entre pedras, pregos e soldas, entre as toras de madeira do incêndio no Mercado Modelo de Salvador, materiais que pesavam toneladas… Riscos reais e letais. Eu diria que o ateliê foi minha prova de vida. Um aprendizado sobre viver com elementos ao mesmo tempo instigantes e perigosos, em que a fantasia e a imaginação não tinham limites.
Esse era o lugar onde existia uma ordem no caos. O caos do ateliê, que era tudo ao mesmo tempo. A ordem no caos é a melhor forma de definir um ateliê como o de Cravo Júnior. Em 2020, após a morte dele, vi naquele ateliê vazio sua última grande obra. Uma espécie de resquício sobre algo que ficou e era muito maior, como os grandes sítios arqueológicos. E isso não é um exagero.
Apesar de ter feito da câmera fotográfica meu instrumento de contar histórias, em sua maioria os dramas humanos, sempre tive na “natureza-morta” o desejo de explorar.
Vejo as esculturas, sujas ou limpas, as teias de aranha, os amontoados de peças descartadas, como convites à exploração. Elas chamam,“estou aqui, decifra-me”. Há em cada pedaço do ateliê um sentimento inseparável do artista, e fotografar o conjunto “Templo de Oxalá”, de Rubem Valentim, remeteu-me a esse lugar.
Por questões que desconheço, as obras não estavam na sala especial e permanente. Tinham sido levadas para a reserva técnica, espalhadas, sem nome, sem ordem. Algumas poucas desmontadas para restauro. Com a limitação imposta de não mexer nas obras, usei uma lona como fundo “parcial” para a peça ou o conjunto em destaque, para que ganhassem força, enquanto as demais adornavam o espaço e serviriam como pano de fundo, coadjuvantes.
Queria dar uma ordem naquele caos. Para driblar a falta de profundidade, entrei com a luz forte, inspirado no conceito chiaroscuro, com luzes em destaque, branco no limiar de perder detalhes, enquanto o preto, no limite destes, com uma sombra quase total. Dediquei um dia inteiro a admirar e buscar os melhores ângulos para aquele conjunto de rara beleza que tanto fala sobre a ancestralidade baiana. E vi ali que o propósito da fotografia é sempre este: dar mais vida ao que ja é vivo. Vivo e eterno como as obras de Rubem Valentim.

 

 

A MITOPOÉTICA DO ALFABETO KITÔNICO

Nos anos de 1950, Rubem Valentim começa a esboçar sua semiótica do sagrado partindo das ferramentas dos orixás do culto afro-brasileiro, que inaugurava uma nova estética na arte no país dentro do que ele chamou de uma “riscadura brasileira” e universal, defendida no Manifesto Ainda que Tardio, de 1976.
Nos anos de 1970 ele já havia definido claramente os quinze signos-símbolos, chamados Logotipos poéticos da cultura afro-brasileira, com os quais compôs o Alfabeto Kitônico (energia do centro da Terra). Estes “signos-símbolos” sempre estiveram presentes nas pinturas, desenhos, relevos, painéis, esculturas e serigrafias que o fizeram um dos mais importantes e seminais artistas contemporâneos.
Valentim narrava que, no centro desse Alfabeto, estava o símbolo solar, ou Oxalá, como uma hóstia sobre a taça do Santo Graal. Ao redor e em círculo, dançavam e gravitavam outros orixás no eterno movimento do Cosmos, guardados de cada lado por orixás protetores.
Nesta foto do fim da década de 1980 em seu ateliê em São Paulo, vemos uma ferramenta de orixás com simbologia intercruzada: Oxóssi, Ogum e Ossain; esculturas da década de 1970; pinturas dos anos de 1980; e Valentim segurando a serigrafia Alfabeto Kitônico – editada em 1987 –, como se portasse, poderoso, a chave simbólica de toda a construção estética e espiritual de sua obra.
Foi principalmente a partir do início dos anos de 1970 que Valentim com este “Alfabeto” começou a desconstruir e recombinar estes símbolos-entidades, transcriando-os de forma singular, mágica e potente, ao revelar sua obra com originalidade sem igual nas artes das Américas.